segunda-feira, dezembro 26, 2005

Alívio

...e então, já um pouco irritada, ela repreendeu-o: «Fazias melhor em confiar um pouco mais nas outras pessoas». Ele não respondeu, ficou a vê-la apertar um pouco mais as cordas que lhe prendiam os tornozelos aos pés da cama e, com um meio-sorriso sábio, tirar do saco a venda, a gilette, as velas, o sal grosso e o isqueiro. «Ela é bem capaz de ter razão, por este andar ainda arranjo uma úlcera antes dos 30» pensou. Ainda viu pela janela do quarto as luzes a piscar lá fora, verdes, amarelas, vermelhas, vermelhas, vermelhas. Depois, para seu alívio, ficou tudo escuro. «Detesto o Natal», pensou antes de ouvir o clique do isqueiro num local que lhe pareceu sugestivamente próximo da sua coxa esquerda.