domingo, dezembro 18, 2005

Memória

Houve uma altura da sua vida em que espalhava fodas como quem manda ao mar garrafas com mensagens de SOS. Certa vez teve a surpresa de reencontrar uma delas, numa cama em Paris. Tinham passado três anos, mas não teve dúvidas: era a mesma angústia, os mesmos medos, a mesma gaguez de corpo. Os gestos trôpegos e hesitantes de quem humedece a ponta do lápis para tentar escrever melhor eram indubitavelmente os seus. Era ele quem ali estava, três anos depois, dentro daquele corpo de mulher sem sinais particulares. E, em breve, sem outra memória que não a de ter hospedado, durante todo aquele tempo, o seu pedido de socorro.