sexta-feira, abril 21, 2006

Aniversário

Decidiram celebrar aquela data especial como se fosse um primeiro encontro. Então foram a um restaurante demasiado caro, onde ficaram duas horas sem saber do que falar, olhando distraidamente o relógio, seguiram para um bar com puffs pós-modernos e voltaram para casa, onde fizeram mau sexo durante mais ou menos meia hora. Acabaram, como num primeiro encontro, firmemente decididos a não se voltarem a ver.

sexta-feira, abril 14, 2006

Estatuto

Chegou aos 60 anos com sexo a transbordar-lhe da cabeça e a escapar-se-lhe do corpo decadente. Comemorou com dois copos de Bushmills e uma punheta demorada. Tinha atingido o estatuto de respeitável sexuagenário.

quinta-feira, abril 06, 2006

Boletim de saúde

Primeiro temia as doenças venéreas. Depois, passou a recear as aftas. No fim, foi a síndrome do canal carpiano a liquidar-lhe a vida sexual.

Objector

Depois de ter dado a terceira nega numa semana deixou de pensar em sexo. Assumiu para si mesmo o estatuto de objector de consistência.

Perverso

Era tão perverso, tão perverso que o excitava a perspectiva incestuosa de fazer sexo com a mãe dos próprios filhos.

domingo, abril 02, 2006

Abrigo forçado

É tão intenso e súbito que precisa de qualquer coisa que ofereça resistência. Como a parede, contra a qual se comprime com toda a força que tem. Sozinha, ofegante, embriagada de tesão. Tão contraída que os joelhos se fincam um no outro, com dor. impossíveis de afastar. Passou o momento em que ainda havia acesso, agora é como se já o tivesse, perdido no seu calor húmido e macio que o morde avidamente. Mas para ser real só forçando o abrigo.

Imperativo animal

Chega. Cheira. Roça. Encosta. Esfrega. Apalpa. Afasta. Respira, respira. Cheira. Grunhe. Mordisca. Aperta. Lambe. Sopra. Chupa. Pára. Afasta.

Respira, respira. Empurra. Puxa. Agarra. Despe. Sorve. Espreme. Geme. Cala. Sofre. Palpita. Incha. Inspira. Expira. Pensa. Esquece. Rasga. Abre. Humedece. Entra. Afunda. Desliza. Sai. Entra. Desliza. Sai. Afasta.

Respira, respira. Entra. Vai. Vem. Vai. Vem. Pára. Respira, respira. Entra. Vai. Respira. Vem. Respira. Vai. Respira. Vem. Respira. Murmura. Vai. Escuta. Vem. Respira. Sai. Troca. Segura. Olha.

Vira. Revira. Vai. Respira. Vem. Respira. Vai. Respira. Vem. Murmura. Vai. Ouve. Vem. Pára.

Respira, respira. Sua. Sai. Cheira. Amassa. Espalha. Entra. Vai. Respira. Lembra. Vem. Respira. Vai. Vem. Vai. Vem. Vai, respira, vem, respira, vai, respira, VEMRESPIRAPEDEVAIESCUTAGRITAEXPLODE. EXPLODE. EXPLODE. EXPLODE. Explode. Vai. Respira. Respira... Respira... Vem... Respira... Suspira. Encolhe. Pára. Sai.

Somos animais. Gloriosos animais. Só.

quarta-feira, março 29, 2006

Alcunha (III)

Tinha um conjunto de amigas com quem partilhara a cama, quase sempre por uma noite só. Ele era simpático, sabia anedotas e fazia bons "bloody mary". Por isso só muito tarde percebeu que nas suas costas elas partilhavam, entre risinhos, impressões das respectivas experiências. Daí nasceu a alcunha.

«Mas por quê "carteirista"?» perguntou, à mais leal e constante dessas amigas.
«Não queres saber, a sério», garantiu.
Ele forçou: «Agora que já descobri tens de contar. Não me podes deixar com esta dúvida, vá lá!».
E ela, evitando que o sorriso transbordasse, confessou: «Porque és rápido. Porque nunca damos por nada. E porque, mesmo fartas de sermos avisadas, há sempre uma que acaba enganada entre a luz e a pontinha.»

Sorte

...Longe de estar convencida, ela contra-atacou: «Olha que tinhas de ter muita sorte para acertar no sítio...»

Duas costelas

...E então ele acabou com a discussão, implacável: «Tivesse eu menos dez anos e duas costelas e mostrava-te o que é um broche!»